Pesquisador do Piauí mapeia doenças ligadas a pequenos ruminantes, caprinos e ovinos



Como a pandemia de Covid-19 ensinou, muitos animais que convivem com seres humanos podem transmitir doenças. No caso de pequenos ruminantes, caprinos e ovinos, apesar de muitos séculos de contato, ainda não se conhece a prevalência de todas as zoonoses que acometem estas espécies em diversos partes do mundo, sendo que muitas delas podem afetar diretamente a saúde das pessoas.

“Não temos noção dos agentes patológicos que esses animais, que fazem parte do nosso convívio e da nossa alimentação, podem veicular. Os levantamentos dos cenários epidemiológicos de doenças como a clamidiose, brucelose e toxoplasmose, em diferentes estados da região nordeste do Brasil, estão sendo realizados pela primeira vez por nossa equipe”, destaca o professor Ney Rômulo de Oliveira Paula.

Médico veterinário de formação, mestre e doutor em Ciências Veterinárias (área de concentração Reprodução e Sanidade Animal) e especialização em Perícia Criminal e Ciências Forenses, ele é professor doutor associado do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e lidera um esforço conjunto de pesquisadores e centros de referência para cobrir essa lacuna.

“No caso dos meus orientandos, trabalhamos com as zoonoses brucelose, clamidiose e leptospirose. No macroprojeto interinstitucional em conjunto com a Embrapa (Centro Nacional de Pesquisa de Caprinos e Ovinos), lidamos também com as lentiviroses (a AIDS dos pequenos ruminantes) de caprinos e ovinos e outras doenças, como toxoplasmose e língua azul”, informa o pesquisador.

O primeiro trabalho sobre o levantamento epidemiológico associado a diversos fatores de risco da clamidiose no estado do Ceará, assim como o primeiro levantamento epidemiológico da doença no Piauí, saíram das equipes lideradas pelo professor – são, respectivamente, as pesquisas já publicadas em periódicos de referência para o tema: Risk Factors Associated with Seroprevalence of Chlamydia abortus in Sheep Farms in Ceará, Brazil, de 2020, e Fatores de risco na transmissão e soroprevalência da infecção de Chlamydophila abortus a ovinos e caprinos, de 2016.

“A importância desses estudos é demonstrar que essas doenças estão presentes e que são realidade em nosso convívio, e que temos que adotar medidas de profilaxia e controle junto às autoridades sanitárias (Federal, Estadual e Municipal)”, explica. “Não sabemos o quanto estas doenças afetam a saúde da população e dos próprios animais, isso é muito sério e perigoso”.

Ademais, diversas são as publicações nacionais e internacionais envolvendo o estudo epidemiológico e análise de risco, além da validação de técnicas de diagnóstico de agentes patológicos mais sensíveis e específicas, como os trabalhos já publicados pelo pesquisador: Epidemiological characterization and risk factors associated with Brucella ovis infection in sheep from the states of Rio Grande do Norte, Paraíba, and Sergipe (2020); Seroprevalence of ovine brucellosis in the microregion of Teresina, Piauí, Brazil (2020); Avaliação das técnicas de imunodifusão em gel de ágar, ensaio imunoenzimático indireto e reação em cadeia da polimerase no diagnóstico da brucelose ovina (2018); Investigação sorológica das lentiviroses de pequenos ruminantes nas microrregiões homogêneas do Alto Médio Canindé, Picos e Floriano, Piauí, Brasil (2017); Risk factors for Toxoplasma gondii infection in goats and sheep raised in the State of Piauí in northeast Brazi (2016); dentre outras publicações que podem ser consultadas em seu currículo cadastrado na plataforma lattes do CNPq (link: http://lattes.cnpq.br/3381968299059730).



Softwares específicos

Outra frente de trabalho das equipes ligadas ao professor Ney Rômulo de Oliveira Paula é o desenvolvimento de bioprodutos e bioprocessos, além do desenvolvimento de softwares específicos para monitoramento da saúde humana.

“Temos diversos orientandos (mestrandos e doutorandos) que são enfermeiros, fisioterapeutas e médicos que necessitam do desenvolvimento desses aplicativos, de forma que o trabalho em suas áreas possa ser aprimorado, aperfeiçoado e tornando mais objetiva a tomada de decisões nas equipes de saúde”, afirmou.

Neste momento, encontra-se em fase final de desenvolvimento um software de avaliação de risco para pacientes que chegam aos prontos-socorros, de forma que a equipe multidisciplinar de saúde possa fazer um direcionamento e acompanhamento mais objetivo do paciente. Também está nos planos, ainda para 2021, lançar outro aplicativo para ajudar a avaliar a necessidade real de intubação para pacientes de Covid-19.

“Lembramos que esses aplicativos se encontrarão disponíveis nas plataformas IOS e Android para download, podendo ser utilizado no próprio smartphone do profissional de saúde”.

Além das pesquisas referentes à Sanidade Animal, Dr. Paula atua na área da Reprodução Animal, seja a fisiopatologia da reprodução, ou as diversas biotécnicas aplicadas à reprodução de animais domésticos e silvestres. O desenvolvimento de bioprodutos e bioprocessos destinados à solução de diversos entraves que esta área ainda apresenta para a sociedade é alvo de diversas pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de diluidores e crioprotetores seminais.



O professor trabalha no desenvolvimento de alternativos meios para a manutenção e lavagem de embriões (para a produção in vivo de embriões), além do desenvolvimento de meios para as diferentes etapas de produção in vitro de embriões de mamíferos, especialmente os caprinos e ovinos, espécies apaixonantes na visão do pesquisador.

A utilização do bioproduto Água de coco em Pó (ACP®), em suas diferentes constituições, e em parceria direta com a empresa privada ACP Biotecnologia de Fortaleza, vem desenvolvendo e validando diversos desses meios, que logo gerarão depósitos de patentes a fim de serem colocados disponíveis para profissionais do campo ou de pesquisas nas diversas instituições nacionais ou internacionais.

Algumas publicações podem ser vistas em periódicos específicos da área: Uso da polpa desidratada do fruto de Mauritia flexuosa como suplemento ao diluente de congelação do sêmen caprino (2020); Diluente Tris suplementado com óleo de Mauritia flexuoxa sobre a qualidade do sêmen caprino após a criopreservação (2020); Maturação in vitro de oócitos ovinos submetidos à congelação lenta (2019); Programas de inseminação artificial com sêmen congelado de caprinos e ovinos por laparoscopia no Nordeste do Brasil (2018), dentre outros.

Além da área de biotecnologia da reprodução propriamente dita, o professor atua também, junto com equipes da Embrapa Caprinos e ovinos, na verificação da potencial transmissão do lentivírus de pequenos ruminantes através do sêmen ou da técnica de inseminação artificial, sendo eles uma das primeiras equipes do Brasil e do mundo para avaliar esse tipo de transmissão, para esse vírus que é considerado o “HIV” dos caprinos, e muito estudado comparativamente pela medicina humana em pacientes com atrite reumatóide, podendo ser verificados em algumas de suas publicações: Transmission of the caprine arthritis-encephalitis virus through artificial inseminatio (2013);

Immunohistochemical and ultrastructural evaluation of gametes and embryos of goats infected with CAEV (2010); Características andrológicas estacionais de caprinos infectados naturalmente pelo lentivírus de pequenos ruminantes no estado do Ceará (2009); Profile of the Caprine arthritis-encephalitis virus (CAEV) in blood, semen from bucks naturally and experimentally infected in the Semi-Arid region of Brazil (2009), sendo estas duas últimas oriundas de seu doutoramento.



Inseminação artificial

O professor é ainda o autor principal do livro Inseminação Artificial: uma importante ferramenta biotecnológica para o incremento produtivo do rebanho caprino e ovino, publicado e lançado em 2018. “Na parte de reprodução animal, nós trabalhamos com biotecnologias reprodutivas”, relata. Segundo o professor, a inseminação artificial também se destaca como uma de suas principais atividades profissionais.
“Temos diversos projetos em andamento na área de inseminação artificial, transferência de embriões, produção de embriões in vivo e in vitro, de pequenos ruminantes, e também na parte de criobiologia, na conservação germoplasma, seja sêmen, oócito ou embrião”.

Rodolfo Haas
Fonte:https://www.jornaldacidadeonline.com.br/
Data: 04/03/2021
Instituições Participantes